...sobre sabores amargos e picantes e o que isso tem a ver com crescer.


Quando a gente nasce, a gente pode ser considerado como uma "tela em branco", ou talvez não. Algumas pesquisas apontam que nossos gostos, principalmente por sentidos que não a visão ou olfato, começam já no útero. O feto consegue ouvir músicas (ainda que de forma bem abafada) e reagir à elas. O feto também sente sabores fortes dos alimentos que a pessoa gestora come, já foram registrados casos onde o feto faz "careta" ao comer alimentos amargos como couve. Apesar disso, o gosto é considerado apenas a partir do nascimento e, geralmente, segue um roteiro muito bem definido.
No começo, não há como ser diferente. O neném terá por muito tempo como único alimento o leite materno. O alimento primordial e universal que possui tudo necessário para que uma criança cresça saudável e fortinha. A não necessidade de nenhum outro tipo de alimento desenvolve o gosto mais básico de todos, e todos um dia o tivemos.

Neném dormindo bem pesado depois de, provavelmente, beber leite.

Neném se sujando, um fofo pleonasmo.

Apesar de marcante, a fase do leite materno dura pouco tempo. Rapidamente os bebês são colocados diante um grande desafio: comida. Não necessariamente sólida, no começo sempre são dadas papinhas sem muita textura, afinal os dentes são assunto para o próximo futuro. O termo "introdução alimentar" é usado nessa fase, e é a melhor descrição curta do fenômeno. Como o leite materno tem um sabor adocicado, é a primeira vez que o ser humano terá contato com os sabores salgados que serão tão presentes, e a reação comum é uma careta de quem não gostou seguida de uma segunda abertura de boca. Uma adaptação rápida e fofa, afinal a cara de joelho de um bebê fazendo careta é impagável.
Na infância, adquirimos muito apreço por sabores doces e comidas hiper palatáveis. Comidas e combinações com sabores fortíssimos sem nenhuma nuance feitos apenas para satisfazer um desejo imediato por experiência. Quem nunca ouviu a expressão "paladar infantil" ou viu aqueles botões "KIDS" nos microondas. Não culpo as crianças, a fome de conhecimento de maneira contraditória sempre nos devolve aos elementos que descobrimos serem prazerosos, mas que esse tipo de rótulo criado pela sociedade reforça esse comportamento eu não tenho dúvidas.

E conforme as pessoas crescem, elas entram em contato com todos os sabores e adquirem suas preferências. Tem quem adore comidas salgadas, quem se autointitule "formiguinha", quem adore coisa azeda, quem come pouquíssima variedade de coisas e muitas outras. O roteiro parece diverso, mas sempre segue caminhos relativamente previsíveis.
Desses caminhos, dois deles sempre se destacam como polêmica: o amargo e o picante.
O amargo é um dos 5 sabores da língua. Salgado, doce, azedo, amargo e umami se juntam para fazer com que alimentos deixem de ser apenas nutrição e passem a ser experiência. Ainda assim, o amargo é desprezado por muitos, que dispensam sentí-lo.
O picante, diferente do amargo, não é um sabor mas sim uma sensação. Pimentas possuem capsaicina em suas sementes, um composto ativo que "gruda" nas partes das papilas gustativas que detectam calor, gerando aquela sensação de "queimação" e temperatura alta que as pimentas causam. Por causa da característica agressiva, muitas pessoas evitam comer alimentos picantes.

Convenhamos, isso não parece nem um pouco com um dedo de moça.

Chocolate amargo é o mais autêntico chocolate por possuir mais chocolate.

Amargo e picante são sensações diferentes da boca. Ao invés de serem imediatamente prazerosas e recompensadoras, são punitivas. Curioso pensar, afinal, que esses sabores se desenvolveram em alimentos justamente para evitar que fossem comidos pelos animais. Até chegar o masoquista ser humano e começar a apreciar esse tipo de gosto, e eu devo confessar que sou um desses.
Nem sempre fui chegado em pimentas ou chocolates meio amargo. Sempre tive o mesmo pensamente de que, se podia estar provando uma comida gostosa, não havia motivo para estar comendo algo que me faria sofrer. Eventualmente me forcei a provar sabores apimentados, muito por influência de meu pai que adora comida apimentada.
Não foi rápido e a recompensa não é facilmente percebida, mas agora sou um adulto que, como muitos outros, gosta de comidas apimentadas.

Quando estamos na infância, olhamos os adultos se submetendo a sabores que não gostamos e nos perguntamos como seria possível alguem desejar por eles. Essa é uma pergunta sem resposta, mas com solução. A experiência é a melhor professora nesse caso.
Conforme vamos crescendo, sempre buscamos coisas diferentes e, se crescemos de forma relativamente saudável, buscamos sempre nos desafiar. Desafiar nossos limites físicos, criativos e outros tantos que não poderia nomear, ser humano também é ser desafiado. Esse é um fenômeno exclusivo do ato de crescer que acho extremamente bonito e se aplica muito bem à alimentação. Assim como gostar de filmes de terror ou de tapas na hora do amor, os sabores amargos e apimentados nos desafiam. Entregam sensações diversas aos cômodos sabores salgados, doces e azedos, as vezes até os combinando. Como a vida é construída por contradições, uma sensação "desagradável" deixam as experências mais agradáveis.
Todos que entraram na maioridade provavelmente ficaram sucetíveis à introdução da cerveja no paladar, uma bebida amarga que ninguém gosta ao beber pela primeira vez, mas talvez seja do gosto após algumas latas. Após se acostumar e entender o sabor que nos desagradava, acabamos sentindo diversas nuances e sensações diversas que o mesmo nos dá. Uma boa cerveja possui o gosto dos grãos que a compôe e dos lúpulos que são infusionados nela. Uma comida apimentada aflora sabores agradáveis depois de uma sensação de calor.

Cerveja, o maior motivo pelo qual paramos de ser caçadores-coletores.

Filmes de terror nos desafiam, mas não achei apropriado ilustrar a outra coisa...

E isso tudo é uma reflexão brasileira, afinal a alimentação é cultural. No México, pimenta faz muito mais parte da cultura do que aqui, onde crianças já são introduzidas à pimenta desde cedo. Na China, crianças já são acostumadas à sabores agridoces, coisa que assusta quase todo adulto brasileiro. No Japão, sabores doces intensos não são nada comuns e doce de criança brasileira é muito doce.

Entender sobre os sabores também é entender sobre existir. Todos conhecem aquela pessoa "chata", mas que nós amamos profundamente. Uma pessoa chata que amamos é como se fosse uma comida apimentada: traz muita autenticidade e nuance através de uma sensação desafiadora. Sabores doces demais afastam até mesmo quem gosta deles.

De tudo isso, vem a reflexão do título. Crescer é descobrir e aprender a descobrir. Se permitir investir mais em experiências que aparentam desagradáveis mas que guardam muita emoção por trás. Aprender a apreciar o que amarra sua boca é perceber que o sabor amargo é uma sensação que não pode ser replicada de nenhuma outra maneira.
Apesar disso, tá tudo bem não gostar de pimenta ou amargor! Pessoas são totalmente diferentes e isso é lindo, não gostar de uma ou duas sensações não te fazem menos adulto. Essa reflexão não diminui quem não traga dos sabores, mas exalta as experiências que vem com eles.

Todo mundo vai crescer, apimentado ou não. Eu digo que não vale a pena passar a vida não se desafiando no paladar, mas acima de tudo, sejam livres para serem seus próprios paladares.




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