...sobre os últimos 7 dias do ano, o rock triste e como ele representa os finais.


Não é de sempre que eu tenho uma conexão forte com música, na verdade é bem recente.
Na infância e no começo da adolescência, eu não tinha gostos músicais. Ouvia e absorvia as músicas que tocavam nos ambientes que eu frequentava (que eram minha casa e a escola), então por um tempo acreditei "não gostar de música". Parece maluco ouvir ou digitar uma frase tão estranha pros dias de hoje onde tudo tem trilha sonora, e realmente é.
O processo de realmente começar a escutar música foi bem gradual. Quando vi, já ouvia minhas próprias músicas: openings e endings de anime... que patético.
Depois de amadurecer um pouco mais, me encontrei no enorme guarda-chuva musical: o rock. Não entendo detalhes técnicos sobre música ou o que faz uma ser indie, metal, nu-metal e outros, mas pude aprender a apreciar bastante esse estilo de música de maneira levemente isolada, não teve alguém para me apresentar à esses estilos, eu apenas comecei.

Mais recentemente, comecei uma onda de ouvir bandas pequenas e independentes nacionais e foi uma das melhores coisas que fiz. Descobrir música boa pouco prestigiada é achar ouro na montanha de Sina de Ofélia por ai. Entre essas bandas pequenas, o termo "rock triste" me apareceu bastante vezes entre as descrições de todas essas bandas, e consegui notar o padrão. Instrumentais com baixo carregado, tom mais energético porém com letras profundas e, como o nome sugere, tristes. Os destaques do meu fim de ano no rock triste foram as bandas 'glover.', 'Chão de Taco' e 'Não Existe Saudade em Inglês'.

glover.

Chão de Taco

Não Existe Saudade em Inglês

Poupando vocês de descrições e análises instrumentais vindas de alguém sem nenhuma experiência ou estudo sobre música (deixo isso para os logs), eu gostaria de falar sobre a vibe que essas músicas trazem e como ela me faz refletir sobre alguns aspectos da minha vida e talvez isso te inspire para alguma coisa.


Os instrumentais carregam um peso melancólico único. É díficil descrever, só consigo definir como se os instrumentos chorassem ao mesmo tempo que definissem um fim de tarde. Ainda que bem definido, o estilo ainda tem grande margem para cada banda definir seus próprios estilos.

Citando 'glover.', o ritmo é mais rápido e o vocal e mais gutural e gritado, mas não é um grito de raiva. Um grito de sofrimento, um grito de saudade. Sentimentos azuis expelidos numa explosão vermelha, escolha muito ousada da banda que faz de suas faixas uma representação ótima do luto em relação aos finais. Finais esses que podem ser de muitas coisas, mas sempre carregam consigo o luto. Diferente da melancolia, o luto é a indefinição, é o não saber como as coisas serão dali pra frente, é o não existir mais da mesma maneira, e ainda assim o luto também é o sofrimento.

'Chão de Taco' é a melancolia. A tristeza e a recuperação. O imaginário de algo que pode ser ou poderia ter sido. A aceitação de que seus sentimentos tristes são válidos como qualquer outro. O desejo bobo de tudo que parece estar ao alcance e a idealização do abstrato. Sentir a tristeza e se permitir sentir, ter a sensação do fim. Lutar pela continuação, mas saber que é uma causa perdida.

'Não Existe Saudade em Inglês' é a despedida jovem. Despedidas são sempre tristes, mas a despedida jovem em especial possui o reconhecimento da falta de amarras, mas a abundância de laços. Aquilo do qual estamos nos despedindo não necessariamente vai deixar de existir, mas vai ficar pra trás. Nenhuma mágoa ou rancor é levado por quem se despede, mas sobram sempre as memórias e a sensação de saber que existimos em um lugar diferente do nosso e, a qualquer momento, somos bem vindos lá. Lembrar do que já foi sempre que abrir uma gaveta a muito fechada.

Assim são os finais na nossa vida. Tudo eventualmente acaba, finais são inevitáveis e não adianta correr dessa verdade.
O rock triste, como toda música, é expressão. Externalizar o que precisamos sentir, do nosso próprio jeito, é o que faz da música tão especial. É existir como humano. O rock triste nos ensina a existir, mesmo durante o luto, mesmo durante a melancolia, mesmo durante o fim.

Os 7 últimos dias do ano são conhecidos por serem vazios. São 7 dias onde nada novo pode chegar, já foi o tempo de iniciar qualquer tipo de projeto. 7 dias onde a única coisa a se fazer é pôr fins. Em laços mal resolvidos, em dores antigas, em sonos mal dormidos. 7 dias onde nada novo deve nascer, afinal não há tempo. 7 dias sem pique, sem ânimo. 7 dias sem começo.

Até que os primeiros incêndios estelares singrarem os céus.

No dia 31 de Dezembro os lutos, os finais e a melancolia dos últimos 364 dias do ano ainda estão por ai. Nesse último dia, resta uma coisa a fazer: pôr um final à tudo. Por um final à você mesmo e às suas próprias memórias, vivências e valores para, assim, observar o brilho dos fogos no céu e entender, por fim, que o começo e o fim não são lá tão diferentes. Despedir sem amarras do nosso "eu" do dia 31 e nos transformar no "eu" do dia 1.
Através disso, existe uma mensagem que não pode ser transmitida e apenas nós podemos absorver: O fim nada mais é que algo novo. Um novo começo. Aprender isso tudo vem acompanhado de aprender que uma trilha sonora sempre acompanha você em seus momentos, diferente do que eu achava quando era mais novo.

Tenham sempre uma trilha sonora os acompanhando e, nesse começo de ano, construa seu melhor você. Chegando ao fim desse monte de abstração, poesia e melancolia, entenda que o começo e o fim são a mesma coisa e, também, entendam a relação dos últimos 7 dias do ano, o rock triste e como ele representa os finais.

Feliz Ano Novo à todo mundo! Feliz 2026!




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