...sobre ser um "barco de Teseu social".
Ninguém mantém o mesmo gosto desde que nasceu. Pessoas são construidas, pouco a pouco, num processo que a gente nem mesmo vê.
Gostos e o amadurecimento
deles é algo que me intriga bastante também, mas é foco para outra reflexão.
Nossos gostos são moldados pelas pessoas que a gente aprende a amar e a gente
nem percebe. De repente, você gosta de Limp Bizkit por causa de seu amigo que tem ela como banda favorita, ama comer sorvete de flocos por causa do seu irmão
e assiste Ordem Paranormal por causa da pessoa que você ama e chama de cônjuge.
Esse pensamento é recorrente na história recente da internet, vindo com o nome
"Trend do Mosaico" e junto da frase "Somos um mosaico de todas as pessoas que amamos". A frase já virou clichê de rede social, e eu gosto dela. Mosaicos de
todos nossos amores, a ideia quase pueril da brincadeira de juntar com a realidade opressiva de que não somos pessoas inteiras, mas sim que somos todos cacos
quebradinhos que se juntam em algo que toma forma autêntica. Uma forma "nossa".
Apesar de apreciar a frase, acho que ela não traz à reflexões mais complexas
que o assunto permite, por isso eu dei um nome autoral pra esse fenômeno: Barco de Teseu social.
Paradoxo do Barco de Teseu. Como permanecer e mudar podem ocorrer simultâneamente?
O Paradoxo do Barco de Teseu já é bem antigo. Segue a história de Teseu, o rei fantástico fundador de Atenas que, nas lendas, matou o minotauro. Após tal feito, Teseu teria resgatado
crianças atenienses da ilha de Creta e fugiu em um navio que foi para a ilha de Delos. Com isso, os atenienses criaram uma tradição anual de levar o navio para uma
peregrinação de Atenas à Delos. Já naquela época, a peregrinação anual teria levantado a seguinte dúvida: depois de vários séculos de manutenção e após cada parte
individual do barco ter sido substituída pelo menos uma vez, ainda seria o mesmo barco?
Uma reinvenção mais complexa da história adiciona o barco "Carniceiro"
que estaria seguindo o barco de Teseu. Sempre que Teseu substituísse uma peça de seu barco, a antiga era atirada ao mar, sendo reutilizada para conserto do Carniceiro. Ao
atracarem, o Carniceiro é feito exclusivamente das partes que Teseu atirou ao mar. Neste caso, qual é o verdadeiro barco de Teseu? O Carniceiro ainda existe?
A história do Barco de Teseu faz surgir grandes discussões sobre identidade, permanência e mudança, temas esses que acho bem pertinentes no que tange os mosaicos.
Quando nos entendemos como partes de quem amamos, pode surgir a dúvida se somos feitos de alguma parte autêntica. Como podemos ser nós mesmos sendo aqueles a nossa volta?
Baseado na dúvida, faço a seguinte questão: tivemos sequer alguma peça realmente nossa?
Leibniz propõe uma resolução lógica ao problema: "X é o mesmo que Y se, e apenas se, X e Y têm as mesmas propriedades e relações, assim, tudo o que é verdade para X é também verdadeiro de Y, e vice-versa".
Logo, o antigo barco de Teseu teria a "propriedade" leme número 1, enquanto o novo barco possui a "propriedade" leme número 2, se tratando então de dois barcos diferentes.
Essa interpretação é oposta à muitos filósofos que dizem que, se isso for verdade, qualquer coisa que mudasse desde a última vez que se observou o objeto significaria que
aquele objeto já não existe mais e há um novo objeto no lugar. Contraditoriamente, eu concordo tanto com Leibniz quanto com os que se opõem à ele. Isso é, ao utilizar da metáfora para
observar as pessoas e suas relações, assim como eu fiz durante esse post inteiro.
Olhar novamente para as pessoas e perceber que elas já não existem é um dos elementos que fazem da relação social humana tão interessante. Pessoas mudam, mudam muito e muito rápido.
Olhares atentos sempre vão perceber como as pessoas nunca são as mesmas, nem durante o mesmo dia. Mudar seus gostos, mudar seus pensamentos filosóficos acerca das mais variadas questões,
mudar sua leitura política de situações. Como Rose Quartz explica com maestria em Steven Universe:
"You're supposed to change. You're never the same, even moment to moment, you're
allowed and expected to invent who you are, what an incredible power. The ability to grow up".
X é o mesmo que Y se, e apenas se,
X e Y têm as mesmas propriedades
e relações!
Que poder incrível, Leibniz!
A habilidade da matemática.
Perdoem a frase em inglês, mas era necessária. Se entender como um ser mutável nos faz entender uma das mais valiosas lições vindas dessas reflexões: não há coisa mais corajosa
e autêntica do que ser formado por pedaços de pessoas que você ama.
Como é lindo gostar de Gojira por causa de alguém que eu gostava. Como é legal saber muito sobre animes por
admiração à alguém do passado. Como é engraçado possuir os mesmos trejeitos de quem me cerca. Como é ótimo gostar de Steven Universe por causa de mim mesma.
Exatamente! Os
pedaços de barco que te formam podem muito bem vir de você do seu passado ou você de seu presente! A gente se acostuma tanto a nos deixar de lado que acabamos esquecendo que
estamos em todo lugar que vamos. Você não é formado somente de pedaços dos outros. Você mesme artesanalmente construiu diversos pedaços do seu barco.
Em contrapartida, é impossível que mudemos a cada observação, afinal continuamos sempre os mesmos.
A gente não muda, mas melhora e adiciona. Limpa os cômodos que já não
são usados e adiciona decorações que revitalizam as partes podres. Somos o melhor do mesmo barco, e somos vários barcos.
Tenha a coragem necessária de ser um barco de Teseu! Sempre reflita sobre sua identidade, é sempre bom manter o barco filosofando.